Novidades > Artigos

14/03/2008
A agonia dos remanescentes da primeira fŠbrica de ferro do Brasil em Morro do Pilar

Foto Anterior Legenda da foto bla bla bal baljjflakjf adflajf adf Foto Posterior
Marcos da primeira produ√ß√£o de ferro em alto-forno na Am√©rica do Sul, os √ļltimos remanescentes da Real F√°brica de Ferro do Morro do Gaspar Soares, hoje Morro do Pilar, encontram-se em total estado de abandono. Da f√°brica, cuja constru√ß√£o foi autorizada pelo pr√≠ncipe regente Dom Jo√£o VI h√° 200 anos, logo ap√≥s a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, restaram apenas as ru√≠nas de dois pilares do alto-forno. Em 1990, por determina√ß√£o do ministro das Minas e Energia, Aureliano Chaves (1929/2003), a ent√£o estatal Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, implantou no local um monumento em homenagem ao idealizador da f√°brica, o Intendente do Distrito Diamantino, Manoel Ferreira da C√Ęmara Bethencourt e S√° (1764/1835), hoje abandonado.

ďRecebemos den√ļncias grav√≠ssimas e j√° encaminhamos √† prefeitura um of√≠cio solicitando provid√™ncias. Mas, tanto quanto a preserva√ß√£o dos remanescentes da f√°brica, o que propomos √© o tombamento de toda a √°reaĒ, afirmou o coordenador da Promotoria Estadual do Patrim√īnio Cultural e Tur√≠stico, Marcos Paulo de Souza Miranda. Segundo a den√ļncia recebida pela promotoria, o monumento, cuja constru√ß√£o foi projetada para proteger os remanescentes do alto-forno da f√°brica, est√° com a cobertura comprometida por v√°rias partes quebradas e os pisos estragados e sujos. Al√©m disso, o vandalismo √© outra amea√ßa, registrando-se picha√ß√Ķes e marcas de canivetes e pregos nos antigos pilares do alto-forno.

ďF√°bula do ferroĒ

Pela carta r√©gia do pr√≠ncipe regente, de outubro de 1808, o Intendente C√Ęmara foi autorizado a deduzir do or√ßamento anual do Distrito Diamantino, cuja administra√ß√£o era monop√≥lio da Coroa, os recursos necess√°rios para a constru√ß√£o de uma f√°brica de ferro na Comarca do Serro Frio. O Intendente acabou escolhendo o Morro do Gaspar Soares para a instala√ß√£o da f√°brica, devido √† pureza e √† abund√Ęncia do min√©rio de ferro encontrado na regi√£o. Al√©m disso, as matas para a produ√ß√£o de carv√£o eram abundantes e a localiza√ß√£o do morro era tamb√©m estrat√©gica, √†s margens do Caminho dos Diamantes da Estrada Real e pr√≥xima ao rio Doce, por onde ele projetava escoar o ferro para a Bahia e para o Rio de Janeiro.

As obras de constru√ß√£o da f√°brica tiveram in√≠cio em abril de 1809, mas logo o Intendente se deparou com enormes obst√°culos t√©cnicos. A futura f√°brica estava localizada a cerca de 150 quil√īmetros do Arraial do Tejuco, hoje Diamantina; o que dificultava o transporte de materiais para a constru√ß√£o e a sua pr√≥pria presen√ßa no local. Por outro lado, o local escolhido para a f√°brica, embora pr√≥ximo ao rio Pic√£o, n√£o facilitava o fornecimento de √°gua. E a tudo isso se acrescia o fato de que o pequeno povoado do Morro do Gaspar Soares, que fora fundado em 1701 pela bandeira do coronel Ant√īnio Soares Ferreira, n√£o dispunha de m√£o-de-obra qualificada para os servi√ßos.

A op√ß√£o do Intendente C√Ęmara pela constru√ß√£o da f√°brica de ferro no Morro do Gaspar Soares - assim batizado em homenagem a um dos bandeirantes da expedi√ß√£o de Ant√īnio Soares - acabou tamb√©m gerando fortes cr√≠ticas tanto no Arraial do Tejuco quanto no Rio de Janeiro. Na Corte, no Rio, a oposi√ß√£o foi liderada pelo influente Bar√£o de Eschewege e, em Diamantina, pelo lend√°rio mineralogista Jos√© Vieira Couto, que denominava o empreendimento do Intendente, sarcasticamente, de ďf√°bula do ferroĒ.

Te-deum ao ferro

As dificuldades de acesso, C√Ęmara superou com a constru√ß√£o de estradas, uma delas aberta desde o morro at√© a atual cidade de Congonhas do Norte, de onde foram trazidas, em grandes carros de boi, pedras apropriadas para as constru√ß√Ķes e moinhos da f√°brica. O problema do abastecimento de √°gua, por sua vez, o Intendente s√≥ contornaria depois da f√°brica em atividades, em 1819, com a constru√ß√£o de dois tanques no rio Pic√£o e de um canal que levava a √°gua at√© os moinhos - e cujas dimens√Ķes impressionaram o naturalista Saint-Hilaire em visita √† f√°brica naquela √©poca. J√° os problemas com a m√£o-de-obra seriam em parte resolvidos por meio da contrata√ß√£o de trabalhadores europeus especializados na fabrica√ß√£o de ferro.

Depois de muitas tentativas sem sucesso, a primeira ďcorridaĒ de ferro do alto-forno da Real F√°brica ocorreu, finalmente, em 15 de outubro de 1815. E para comemorar a vit√≥ria o Intendente seguiu para o Tejuco com uma comitiva de 36 cavaleiros e m√ļsicos e tr√™s carros de boi carregados com 2,7 toneladas de ferro. No dia 21 daquele m√™s, a comitiva chegou ao Tejuco, onde C√Ęmara decretou tr√™s dias de feriado e a realiza√ß√£o de Te-deuns, em a√ß√£o de gra√ßas pela chegada do primeiro carregamento de ferro de Morro do Gaspar Soares.