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22/11/2006
Jequitinhonhês: sinônimo de cultura no Vale

Além de suas riquezas naturais e culturais, o Vale do Jequitinhonha também possui outra relíquia: sua linguagem. O modo de falar do Jequitinhonhês, dialeto da região, com expressões bem peculiares, desperta o interesse de quem não conhece o Vale e promove a integração de seu povo. Só quem vive no Jequitinhonha sabe que beira-mar não é uma região costeira, mas sim uma cantiga de canoeiros e que boneco de cera está mais próximo de uma “pessoa fora da realidade” do que de um brinquedo.

Para a pesquisadora e coordenadora da área cultural do Pólo de Integração da UFMG no Vale do Jequitinhonha, Sônia Queiroz, o Vale apresenta diferenças de vocabulário marcantes em relação a outras regiões. Em pesquisa no local, ela se deparou com algumas expressões que até então desconhecia como “sorveteu”, que quer dizer sumiu, e “meletoso”, que significa esfarrapado. “Encontrei seu Joaquim, morador da região, que me disse a seguinte frase: ´se minha mulher tivesse a licença que a senhora viria aqui hoje, ela não teria saído´”, diz explicando que ter licença é o sinônimo de saber.

No entanto, Sônia afirma que as expressões típicas do Jequitinhonha não fazem com que o local seja conhecido como exótico. Para ela, cada região tem suas particularidades que determinam o modo da fala. “As características de uma região também são determinadas pela sua linguagem”, diz. As principais atividades do Vale, como a agropecuária e o artesanato, podem influenciar no jequitinhonhês. Isso porque, novas palavras surgem para designar as peculiaridades da comunidade local. “Cada povo cria expressões para o que está em sua volta. Os esquimós, por exemplo, têm várias palavras para diferenciações de gelo. Nós praticamente só conhecemos gelo e neve”, explica Sônia.

Apesar de a linguagem ser considerada um fator de integração no Jequitinhonha, ela também pode apresentar variações dentro da própria região. “A fala do meio rural é diferente de cidades como Diamantina, em que as pessoas têm mais acesso à literatura e aos meios de comunicação. O contato com a leitura influencia muito na linguagem oral”, afirma Sônia. Em sua pesquisa no Vale do Jequitinhonha, ela também percebeu diferenças marcantes entre os meios urbano e rural, uma delas é a falta do uso de artigos. “No interior, eles dizem muito `fui à casa de minha mãe` ao invés de dizerem ´fui à casa da minha mãe`”, exemplifica.