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04/10/2006
Entrevista Especial com Dom Luiz Flávio Cappio

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Uma vida pela vida

Denise Menezes

Padre franciscano, o bispo de Barra (BA), Dom Luiz Flávio Cappio ou simplesmente Frei Luiz, como é conhecido pela população beradeira, fez da defesa do Rio São Francisco a grande causa de sua vida. Por uma feliz coincidência comemora em 4 de outubro, dia de São Francisco, seu sexagésimo aniversário. Na data, em 1501, o navegador genovês Américo Vespúcio “descobriu” o grande rio e o batizou com o nome do santo do dia.

Em 1992, Frei Luiz, esse paulista nascido em Guaratinguetá, empreendeu uma peregrinação de um ano, da nascente à foz do Velho Chico, quando visitou mais de 100 cidades ribeirinhas, chamando a atenção dos brasileiros para a agonia do rio e mobilizando as comunidades em sua defesa. Ganhou o respeito da população das diversas localidades e transformou-se em referência nacional nas questões ligadas ao rio da integração nacional.

Há um ano, envolveu-se em nova empreitada em favor do rio, contra o projeto de transposição de suas águas, em uma campanha que ficou conhecida como “Uma vida pela vida”. Foram onze dias de protesto, em greve de fome, no município de Cabrobó (PE), encerrada somente após o governo federal se comprometer a suspender a execução do polêmico projeto e a abrir uma ampla discussão sobre a implementação de um programa de desenvolvimento sustentável para a região do semi-árido brasileiro.

Em entrevista exclusiva à reportagem do Terrazul, no dia três de outubro, Frei Luiz falou sobre a evolução das discussões para a revitalização do Rio São Francisco, comentou o resultado das eleições para o governo da Bahia e analisou a postura dos candidatos à presidência, que disputam o segundo turno no próximo dia 29, em relação ao projeto de transposição.

Terrazul – O próximo dia seis marca a passagem de um ano do pacto firmado entre o senhor e o governo em Cabrobó para o encerramento de sua greve de fome. O governo cumpriu o prometido?

Frei Luiz – Quando firmamos aquele acordo com o presidente Lula, por meio de seu intermediário nas negociações, o então ministro das Relações Institucionais Jaques Wagner, ficou decidido que a transposição seria imediatamente suspensa; se reforçaria a revitalização do rio, e seria aberto um processo de discussão para a implantação de um projeto de desenvolvimento sustentável em todo o semi-árido. Devo dizer que o governo está cumprindo integralmente o que foi acordado. A transposição está paralisada. Já tivemos vários encontros com o governo, inclusive com o presidente Lula, e foram abertas três frentes de trabalho, que envolvem representantes do governo e de movimentos sociais.

Terrazul – Quais são essas frentes e como está o andamento dos trabalhos?

Frei Luiz – A primeira para discutir e rever o projeto de revitalização do rio; a segunda para pensar os elementos que devem fazer parte de um projeto alternativo de desenvolvimento sustentável para o semi-árido e a terceira para discutirmos às claras, governo e sociedade civil, a viabilidade do projeto de transposição. Mas, como estamos em um ano eleitoral, o ritmo é lento, mas a Casa Civil da Presidência já tem uma agenda de propostas e proposições e a gente espera que com o próximo presidente, essa discussão se amplie. Sempre digo que com o protesto do ano passado ganhamos uma batalha, mas a guerra continua.

Terrazul – Como o senhor analisa a postura dos dois candidatos à Presidência, Lula e Alckmin, em relação a esse grande debate sobre o Rio São Francisco?

Frei Luiz – Para nós foi uma surpresa desagradável o Lula, o nosso Lula, ter abraçado o projeto da transposição, que não fazia parte de seu programa de governo. Isso nasceu no governo anterior, foi abandonado por Fernando Henrique que teve a inteligência de perceber o grau de dificuldade do projeto e acabou usando a seca de 2001 para não leva-lo a cabo. Quando veio o Lula, ele foi influenciado pelo Ciro Gomes (então ministro da Integração Nacional e um dos maiores defensores da transposição) e decidiu retomar o projeto. Nos encontros que tive com o Lula, ele me disse que quer fazer a transposição e se nós somos contra teremos de convence-lo. Eu então disse a ele que nos dê os meios e a oportunidade que vamos fazer isso. Quanto ao Alckmin, tenho informações alarmantes de algumas declarações que ele tem dado. Sinceramente, pensei que ele fosse mais inteligente. Já deu acenos de que está a favor da transposição, embora não conheça a região do São Francisco, não conheça o Nordeste. Está na contramão do pensamento nacional.

Terrazul – E quanto à eleição de Jaques Wagner para o governo da Bahia? Que tipo de atuação o senhor espera do governador eleito?

Frei Luiz – Como disse antes, o Jaques Wagner foi o intermediário do governo Lula nas negociações em Cabrobó. Passamos cinco horas conversando, olho no olho, e eu espero do governador eleito da Bahia que ele seja representante dos auspícios do povo baiano. Não um interlocutor do presidente Lula na Bahia. Ele foi eleito governador pelo povo da Bahia, então deve priorizar a nova função, ouvir e levar a sério o que o povo deseja.

Terrazul – Há cinco anos, quando recebeu em Barra uma equipe da Expedição Engenheiro Halfeld, que deu origem à implantação do Instituto Terrazul, o senhor disse que o povo beradeiro já tinha consciência da importância do rio e da urgência de salva-lo, mas faltava sensibilidade às autoridades locais e mesmo a entidades da sociedade civil para a questão. Essa situação permanece?

Frei Luiz – Não. Houve alterações e para melhor. Hoje, da nascente à foz, existem ações concretas em defesa do rio. O povo, os colegiais, professores, os movimentos organizados, as comunidades tradicionais – indígenas e quilombolas – e algumas prefeituras têm uma consciência belíssima e promovem ações concretas. Alguns mais, outros menos. Mas o governo, de uma forma geral, está na contramão, não dialoga, não discute. Nosso clamor é esse, o projeto de revitalização do governo federal, por exemplo, precisa ser discutido. Ele envolve muito dinheiro que precisa ser bem aplicado, além, é claro, das questões ecológicas e sociais.

Terrazul РMas a revitaliza̤̣o ṇo ̩ tema de um dos grupos de trabalho?

Frei Luiz – Por enquanto, estamos em uma discussão muito palaciana, o debate tem de chegar ao povão. A quem interessa o rio? Ao povo e ele tem o direito de opinar e decidir. Na minha opinião, a revitalização precisa ser revista, repensada. Hoje os recursos são repassados às prefeituras. Mas existem prefeituras e prefeituras. Prefeitos e prefeitos. Alguns têm consciência e aplicam com ética os recursos recebidos. Outros, sabe lá Deus o que fazem com o dinheiro. O projeto precisa de uma fiscalização maior. Particularmente, eu acredito que temos uma das melhores leis ambientais do mundo, mas ela precisa ser cumprida. Se conseguirmos isso, já estaremos muito bem. Hoje, por exemplo, temos assistido o governo investir no plantio de meia dúzia de árvores para recompor a mata ciliar. Mas a caatinga está sendo extinta, pelas moto-serras, para se fazer carvão. Isso é inadmissível. O método do projeto de revitalização precisa ser revisto.

Terrazul РQual ̩ o estado do rio hoje?

Frei Luiz – De penúria, está depauperado. Tem lugares em que é possível atravessa-lo caminhando. Esses dias, tive notícia de que na foz houve uma manifestação folclórica de 50 cavaleiros, que atravessaram o rio na foz e a água estava na barriga dos cavalos. Sei que estamos na seca, mas é nessa estação que medimos o potencial de um rio, porque na cheia as águas invadem até as ruas.

Terrazul – Como o senhor vai comemorar o seu aniversário?

Frei Luiz – Em uma grande celebração religiosa, aqui em Barra, cujo padroeiro é São Francisco. Vamos celebrar uma missa, à beira do São Francisco, junto ao povo ribeirinho.