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28/11/2007
Remanescentes revelam originalidade da Estrada Real

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Américo Antunes

Os caminhos Novo, Velho e dos Diamantes da Estrada Real no centro-sul do país mantêm originais os traçados do século XVIII, quando foram abertos no auge da corrida do ouro e das pedras preciosas. A autenticidade das rotas foi comprovada através do geoprocessamento de um mapa da Capitania de Minas Gerais, de 1778, elaborado pelo engenheiro militar português José Joaquim da Rocha, e da pesquisa em campo das coordenadas geográficas dos remanescentes dos antigos caminhos. Ambos os estudos, realizados pelo Instituto Estrada Real, fundamentam a solicitação de reconhecimento da Estrada Real como Paisagem Cultural do Brasil e da Humanidade, encaminhada ao IPHAN durante o Seminário Nacional Rotas Culturais e Caminhos Históricos.

Embora grande parte dos antigos caminhos tenha dado lugar às ferrovias e rodovias atuais, a pesquisa cartográfica e em campo, executada sob responsabilidade do geógrafo Glauco Umbelino, identificou cerca de 50 quilômetros de calçamentos antigos em pedra, pontes, sistemas de drenagem de água e muros de contenção, localizados em áreas íngremes, na travessia de serras. Entre estes remanescentes foram selecionados 12 trechos preservados para fundamentar o pedido de reconhecimento da Paisagem Cultural da Estrada Real. E a maioria deles está situada em unidades de conservação ambiental, como o Caminho do Ouro, no Parque Serra da Bocaina, em Paraty, os Caminhos dos Escravos, nos Parques da Serra do Cipó e do Biribiri, em Diamantina, e as Trilhas do Carteiro e do Mangue, na Serra de São José, em Tiradentes, entre outros.

Além do mapeamento dos remanescentes, as pesquisas revelaram um outro dado significativo. No território de abrangência da Estrada Real, que é de 77.724 quilômetros quadrados em mais de 170 municípios mineiros, cariocas e paulistas, nada menos do que 7,85% da área estão protegidas em unidades de conservação integral – estações ecológicas, reservas biológicas, parques, monumentos naturais e refúgios de vida silvestre –, enquanto que no Brasil, segundo levantamentos da WWF, de 2005, este percentual é de apenas 1,85%. Se considerado também as unidades de uso sustentável – áreas de proteção ambiental e de relevante interesse ecológico, reservas da fauna e de desenvolvimento sustentável, e reservas particulares do patrimônio natural –, o inédito estudo mostra que o índice de proteção na Estrada Real sobe para 17%, contra 8,49% no Brasil, conforme dados do Ministério do Meio Ambiente, de 2004.

Representativas de ecossistemas únicos no mundo, como a Mata Atlântica, o Cerrado e os Campos Rupestres, estas unidades de conservação integram hoje duas reservas da biosfera do Programa MAB – O Homem e a Biosfera, da UNESCO. A primeira delas, a da Mata Atlântica, foi criada em 1992, e a segunda, da Serra do Espinhaço, em 2005.

Patrimônio histórico

As cidades históricas situadas ao longo da Estrada Real são conhecidas no país e no mundo por preservar um dos maiores patrimônios tombados do barroco brasileiro. Entretanto, a associação deste enorme acervo em uma perspectiva histórica e geográfica, como requer o conceito das paisagens culturais, traz novas revelações sobre a riqueza e a extensão do patrimônio cultural da Estrada Real. Em seus 1.793 quilômetros, as três rotas formam um verdadeiro museu aberto, resguardado em oito conjuntos urbanos e paisagísticos e 193 propriedades coloniais tombadas pelo IPHAN em 35 municípios. Também relacionados com o século XVIII e com proteção estadual, há 60 outros bens tombados na Estrada Real, enquanto que os tombamentos municipais englobam cerca de 450 propriedades em mais de 70 cidades.

Embora a inscrição nos livros de tombamento federal, estadual ou municipal nem sempre seja sinônimo de preservação de um bem cultural, a autenticidade e a integridade destes acervos ao longo da Estrada Real são elevadas. Prova disso é que Ouro Preto tornou-se a primeira cidade histórica brasileira inscrita na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1980, seguindo-se, em 1985, o reconhecimento do Santuário do Bom Jesus do Matozinhos, em Congonhas, e depois o do centro histórico de Diamantina, em dezembro de 1999. Assim, em maior ou menor grau de integridade, a evidência do “valor excepcional e universal” destes bens - e que os levou a conquistar a inscrição na seleta lista dos patrimônios culturais da Humanidade - está presente também em outras antigas vilas coloniais, como em Paraty, São João Del Rei, Tiradentes, Serro e Mariana, entre outras.

Portanto, a associação deste enorme e diversificado conjunto de bens, culturais e naturais, mostra que a Estrada Real nada mais é do que um produto resultante da relação do homem com a natureza. Seus caminhos foram forjados na busca das imensas riquezas minerais do interior do Brasil e propiciaram um intenso intercâmbio de valores humanos, sobre os quais floresceram as vilas coloniais e uma cultura singular, testemunhas vivas da opulência de uma época.

Por sua vez, os levantamentos cartográficos e os remanescentes encontrados na pesquisa de campo provaram que os antigos traçados permanecem semelhantes 300 anos depois, sendo elevada também a integridade do patrimônio natural e histórico protegido no território da Estrada Real. E estas são as características essenciais que asseguram à Estrada Real a condição de uma paisagem cultural única, cuja proteção e preservação para as gerações futuras deve ser de interesse do Brasil e de todo o mundo.

A dimensão dos caminhos do ouro e dos diamantes

Área da Estrada Real

77.724 Km²

Unidades de Conservação Ambiental

107

Percentual da área protegida

17%

Extensão das rotas

1.793

Remanescentes da Estrada Real

29

Extensão dos remanescentes

50,5 Km

Municípios com bens tombados/IPHAN

35

Conjuntos urbanos tombados/IPHAN

8

Propriedades tombadas/IPHAN

193

 

 

 

Artigo publicado na revista especial do HOJE EM DIA, de setembro de 2007, comemorativa dos 10 Anos da campanha Diamantina Patrimônio Mundial